O HOMEM, ESSA CONTRADIÇÃO

Em alguns momentos, vejo o homem como uma criação admirável, capaz de feitos extraordinários. Em outros, porém, ele me parece um enigma intraduzível. Basta olhar para a imensidão daquilo que suas mãos podem realizar.

Um projeto nasce sobre a folha branca, feito de linhas, medidas e cálculos. Depois ganha corpo, ocupa o espaço, desafia a vastidão do mar e transforma uma centelha em algo que, instantes antes, morava apenas na imaginação. Isto é a genuína grandiosidade, uma inteligência que nunca se contenta em apenas contemplar o mundo, quer inventar novos mundos dentro dele.

É então que desabrocha o espanto.

A mesma criatura capaz de conceber máquinas rumo ao progresso é aquela que forja os mecanismos mais cruéis para destruir a própria espécie. Ergue pontes para encurtar distâncias, mas desenha fronteiras invisíveis dentro de uma mesma cidade. Produz o saber que poderia curar todas as chagas, e ainda assim teima em repetir os velhos erros, como se a inteligência tivesse corrido séculos à frente da sabedoria.

Onde a violência habita muito perto, ela logo se funde à paisagem. Quem aprende a conviver com o medo e com as linhas invisíveis do perigo, desenvolve uma espessa couraça; até o que deveria ser intolerável adquire a feição monótona do cotidiano.

Em outro cenário, diante do peito selvagem da natureza, nossa velha arrogância vem à tona. Aproximamo-nos demais, embriagados de uma falsa segurança. Diante de uma força viva, imensa e imprevisível, ainda nos permitimos sorrir quando o animal avisa, com um gesto bruto, que não tolera a nossa intrusão.

São as marcas do nosso tempo: cremos tanto no controle de tudo que confundimos a proximidade com o domínio. A fera não entende a nossa tecnologia, a lente da nossa câmera ou a nobreza da nossa intenção; ela apenas reage ao instinto. E, diante do perigo real, lá está o homem transformando o risco em espetáculo, como se rir da iminência da morte fosse um modo infantil de diminuir o mundo.

A espécie humana é tudo isso em um só peito. É aquela que ousa arquitetar o que ainda não tem nome. Aquela que olha para o cume da montanha e já desenha caminhos. Aquela que fita o céu e carrega o desejo antigo de tocá-lo. Aquela que funde madeira, aço, pedra, números e sonhos em milagres de engenharia que nos deixam sem ar.

Se a nossa grandeza reside na ousadia de transpor barreiras, a nossa frágil condição se revela justamente na recusa em aceitar que certos limites existem para nos proteger de nós mesmos.

Criamos maravilhas e geramos ruínas. Curamos feridas e abrimos abismos. Salvamos vidas de um lado e, quase sem notar, semeamos a ausência no outro. Deciframos os segredos mais profundos do universo, mas esquecemos a lição mais simples: continuamos a ser parte da terra que pisamos.

O homem é esta singularidade inquieta, capaz de gerar a mais pura beleza e a mais profunda desordem dentro de uma só existência. E ao fitá-lo em suas luzes e sombras, reconhecemos não apenas quem ele é, mas o reflexo daquilo que todos nós somos.