ANTES DAS ASAS

A lagarta rasteja. Ela ainda não conhece o céu, não sente o vento embalando o ar, não sabe a distância exata que um dia poderá alcançar. Conhece apenas o pó da terra, a consistência da folha, a aspereza da casca. É no chão que vive, que se alimenta da própria urgência, que atravessa obstáculos de sombra e cumpre o tempo que lhe pertence.

Penso nesse animalzinho quando olho para o mapa da minha própria trajetória. Passei tantos anos acreditando que precisava dar conta de tudo: do peso invisível do mundo, das escolhas que moldavam os dias, das feridas dos outros e, de forma mais implacável, de mim mesma. Construí por dentro uma exigência de aço que me impulsionava para a frente, mas que, aos poucos, foi me exaurindo. Quando o erro pontuava o caminho, eu não conseguia apenas seguir adiante. Minha cabeça retornava obsessiva ao fato, farejando a palavra que deveria ter sido dita em tom mais suave, a decisão que merecia outro rumo, o detalhe sutil que escapou aos meus olhos.
O problema terminava do lado de fora, mas continuava a morar dentro de mim. Perdia o sono. Tecia redes com os mesmos pensamentos. Refazia conversas no teatro da mente cujas cortinas já haviam se fechado. Transformava um tropeço em uma investigação interminável, como se encontrar o culpado dentro de mim pudesse retroceder o relógio e me conceder o direito de fazer tudo de novo, sem falhas.
Com os outros, eu oferecia o abrigo da compreensão. Comigo mesma, eu cobrava o preço da perfeição. Essa foi a lição mais profunda que os anos me trouxeram: a responsabilidade não é sinônimo de punição. Posso reconhecer uma falha sem permitir que ela se torne a assinatura de quem sou. Posso desejar ter agido de outro modo sem condenar ao exílio a mulher que tomou aquela decisão no escuro daquele momento. A mulher que fui não tinha os olhos que tenho hoje.
Mas é no passado que encontro cicatrizes e uma coragem imensa de persistir. Vejo uma menina que precisou desabrochar antes do tempo, uma mulher que trabalhou, estudou, cuidou de tantas vidas, enfrentou tempestades, defendeu aquilo em que acreditava e continuou caminhando mesmo quando o mapa estava em branco e as respostas ainda não existiam. Cada fase me entregou uma versão legítima de mim.
A lagarta não sabe o dia exato em que suas asas romperão o casulo. Ela apenas vive o seu processo na obscuridade da metamorfose. O seu tempo de rastejar não representa fracasso; é o período em que o chão aduba a promessa do voo. Nem toda decisão precisa ser julgada na solidão da madrugada. Nem todo erro tem o direito de confiscar os dias que ainda nem nasceram. Certas coisas exigem reparo, sim, mas há outras que só pedem a leveza da aceitação e um adeus definitivo para o que já cumpriu seu ciclo.
Ainda estou em transformação. Quero continuar buscando o melhor de mim, sem exigir o impossível. Desejo reconhecer meus erros e aprender com eles, mas sem carregá-los como sentenças. Quero aprender a descansar sem a culpa de estar deixando algo por fazer. Também quero me lembrar de que estar no chão não significa estar sem saída: muitas vezes, é justamente dali que começa a transformação.
Ainda não conheço plenamente as asas que a vida está formando em mim. Já compreendi, porém, que, para acolher a mulher que aprende a voar, não preciso odiar aquela que um dia rastejou.

