A PESSOA QUE AINDA NÃO CONHEÇO

Outro dia, pensei em quantas pessoas moram dentro de uma só pessoa

Existe a criança que fui, com medos, desejo de descobertas e aquela crença inocente de pensar que o mundo cabia inteiro numa tarde de brincadeira. Existe a jovem que queria tantas coisas, a mulher que precisou aprender outras e aquela que hoje olha para trás tentando reconhecer, em cada escolha, um pouco de quem se tornou.

Foi quando voltei ao filósofo Nietzsche e sua fictícia criação do profeta Zaratustra, o qual poderia tecer uma provocação sob medida para os dias de hoje: vivemos amortecidos, apenas carregando fardos do que já foi ou impostos por terceiros e, para nos alertar contra a alienação e guiar a busca por sentido, instaria uma fascinante metamorfose do espírito em três atos.

O primeiro é a figura do camelo, o animal de carga que se ajoelha diante da tradição e aceita passivamente os deveres. Na rotina moderna, tornamo-nos camelos ao rolar a tela do celular, obedecer a expectativas alheias e acumular obrigações sufocantes. “Eu carrego”, responde a alma exausta. É a anestesia do cotidiano em sua forma pura.

Para que a individualidade nasça, o camelo precisa se transformar em leão. O leão é o segundo ato e representa a força da revolta. Ele encara o dragão dos velhos dogmas e brada um retumbante “Eu quero!”. É o momento em que o cansaço vira lucidez, rompe correntes e recusa o papel de mero figurante na própria história.

Mas até a fúria do leão tem limites. Para edificar o novo, o espírito precisa se transformar em criança. A criança, no terceiro ato, simboliza o recomeço, o jogo e a capacidade de criar novos valores sem a amargura do passado. É o ápice da superação de si mesmo.

Diante dessa jornada, devo encarar o teste do eterno retorno: se eu tivesse que viver esta exata mesma vida, com a mesma rotina diária, dores e alegrias, repetida infinitas vezes, eu me desesperaria ou abençoaria o momento?

Zaratustra não oferece consolo fácil; ele devolve a responsabilidade a cada um de nós. Em uma sociedade que empurra para a anestesia dos dias iguais, a lição permanece visceral. Cada um de nós é uma travessia entre o que recebeu, o que viveu e aquilo que ainda pode se tornar.

Diante da pessoa que ainda não conheço, resta escolher se continuo transportando o peso dos outros ou se terei a audácia de (re)inventar a mim mesma.