A COSTUREIRA DO ÚLTIMO FIO

Dona Cecília tinha uma máquina de costura velha e uma frase que repetia entre um ponto e outro: dias melhores virão. Dizia sem pressa, como quem confere se a agulha ainda está no lugar.
Mas houve uma terça-feira em que a frase não saiu. Cecília sentou diante da máquina, olhou a pilha de roupas por consertar e sentiu nas costas o peso de todos os anos. Pela primeira vez, a fé que carregava como quem carrega bolsa velha, parecia ter ficado em casa.
Começou uma conversa com Deus e terminou olhando para o teto, sem saber se alguém escutava. Passou a duvidar de tudo: do esforço, das escolhas, de si mesma. Olhou para as contas, para os planos que não andavam, para as promessas que não se cumpriram, e a pergunta apareceu sem piedade alguma: valeu a pena?

Foi então que reparou no carretel. Restava um único fio, fino, quase transparente de tão gasto, dando a última volta. Cecília riu sem vontade. Era imagem boa demais para ser coincidência, e ela desconfiava de coincidências em dia ruim.
Ainda assim, enfiou o fio na agulha. As mãos tremiam e foi preciso tentar três vezes. Pisou no pedal devagar. A máquina rangeu, hesitou e andou. O fio, que parecia prestes a arrebentar, segurou a costura toda até o fim da bainha.
Ficou olhando o ponto firme sobre o tecido. Não era milagre. Era um fio que, mesmo frágil, não tinha desistido de segurar o que lhe cabia.
Naquela tarde, entendeu o que a frase sempre quis dizer. Fé não é ausência de dúvida. É continuar de pé com a dúvida ao lado. É levantar da cama mesmo sem vontade, lavar o rosto, fazer o que precisa ser feito e deixar o resto nas mãos de quem sabe mais do que nós.
Quando se está assim, com o fio nas mãos e o coração cansado, soltar não é escolha. Amanhã pode ser igual a hoje, mas também pode não ser. E é nessa fresta, pequena, quase invisível, que a esperança costuma entrar.
À noite, ao apagar a luz do quarto de costura, Cecília falou baixinho, só para si: Dias melhores virão. Desta vez, a máquina pareceu concordar.

