Os Trilhos da Omissão

Um maquinista, obedecendo ordens, sabe que os trilhos da locomotiva seguem rumo ao abismo e, mesmo assim, continua alimentando a fornalha. Pode haver inocência em quem obedece quando já conhece o abismo?
Essa pergunta atravessa décadas de filosofia, direito, história e ética e chegou até mim numa aula de mestrado na UNESP. Sem dúvida alguma é profundamente desconfortável porque desmonta a ideia de que grandes atrocidades são praticadas apenas por quem detém o poder, indivíduos de alto escalão. O Holocausto, por exemplo, revelou algo mais perturbador: grandes tragédias humanas não nascem exclusivamente das mãos de quem governa. Elas também dependem da obediência de quem executa, da neutralidade de quem observa e da omissão de quem prefere não interromper o funcionamento da máquina.

É claro que nem toda responsabilidade possui o mesmo grau de culpa. Um operário não ocupa a mesma posição moral de quem arquitetou o genocídio. Mas também é difícil sustentar inocência absoluta quando alguém participa conscientemente de um sistema destinado à perseguição e morte de seres humanos.
Os trens seguiram partindo. Alguém organizava horários, preenchia formulários e conferia listas. Alguém mantinha a engrenagem funcionando com precisão burocrática enquanto vidas eram conduzidas ao horror. E muitos continuavam acreditando exercer apenas pequenas funções sem importância moral.
O mal raramente se apresenta como mal para quem o ajuda a operar. Surge disfarçado de rotina, dever, hierarquia ou simples cumprimento de tarefa. Pessoas que substituem consciência por obediência irrestrita, e reflexão pela tranquilidade de “apenas fazer seu trabalho”.
Do mesmo modo, nem toda omissão nasce da perversidade. Às vezes nasce da ignorância, do medo ou da falsa crença de que a responsabilidade pertence sempre ao outro. Mas existe um momento em que não fazer nada deixa de ser neutralidade e passa a ser participação mediata, pois a consciência humana raramente ignora completamente os sinais. O problema não reside apenas na violência explícita dos que conduzem o desastre, mas também na docilidade coletiva que normaliza o intolerável e, pouco a pouco, aprende a conviver com ele sem sobressalto.
Em tempos de radicalismos barulhentos, o perigo não se concentra somente nos extremos que gritam, mas se amplia na massa que passa a confundir fanatismo com convicção, e agressividade com coragem política. As sociedades adoecem quando o ódio encontra abrigo e a lucidez perde espaço para o impulso.
O caminho mais indicado, e o mais necessário, continua sendo o da medida: pensar antes de repetir, questionar antes de obedecer e resistir ao conforto sedutor das trincheiras ideológicas. Ao se abdicar do equilíbrio entre razão e emoção, alguém acaba lançado aos trilhos, enquanto outros passam a não escutar o ruído do trem.

