O Dia em que esqueci de ser bruxa

Aos seis anos de idade, eu tinha um pacto secreto com o tempo. Dia após dia, alimentava a certeza absoluta de que o sopro das velas do meu próximo aniversário ativaria um poder adormecido e, finalmente, eu me revelaria ao mundo como uma feiticeira. Mas o grande dia chegou, a meninice se distraiu entre os risos e as brincadeiras de rua e eu simplesmente me esqueci de acionar o encanto. Acabei crescendo humana.

Hoje, percebo que aquela menina de seis anos nunca sumiu de verdade; ela apenas trocou a varinha de condão pela resiliência emocional e uma paciência infinita. Continuo aqui, à espera de um milagre. Ele só mudou de forma: um tanto maduro, menos urgente, mas não menos mágico.

Os milagres que me aguardam em stand-by são desejos profundos, daqueles que cultivamos no canto mais nobre da alma, equilibrando o peso da realidade com o magnetismo de uma esperança inarredável.

O primeiro e mais íntimo desses milagres repousa no bem-estar de quem me deu a vida, minha mãezinha. Há um anseio diário pelo restabelecimento pleno, uma torcida constante para que a névoa que passa a desafiar sua mente se dissipe por completo. Espero pelo dia em que a clareza e a lucidez total voltem a reinar absolutas em seu olhar, devolvendo-lhe a integridade de sua presença mais vibrante. É um pedido que nasce do afeto mais puro: a vontade verdadeira de ver quem sempre me acolheu voltar a habitar os dias com leveza, equilíbrio e paz.

Os meus outros anseios vestem o traje da expansão e da liberdade. Há o desejo de desbravar horizontes distantes, de cruzar o oceano para vivenciar a bagagem histórica e a beleza das cidades europeias vistas apenas na tela da TV e que há tanto tempo habitam minhas referências culturais.

Junto a isso, pulsa o objetivo de alcançar uma virada de sorte definitiva – quem sabe uma prosperidade sólida e repentina que redesenhe minha realidade orçamentária, trazendo o alívio de caminhar sem o peso das amarras materiais. No mais recôndito do ser, o que eu mais busco é a magia de uma rotina que flua leve, natural, como se a vida sempre tivesse sido um caminho suave e não essa subida íngreme que enfrentamos todos os dias.

Estar em stand-by não significa estar estagnada. Significa que meu coração se recusa a aceitar o cinismo do mundo. Guardar essa expectativa viva, cheia de boas vibrações e sorrisos teimosos, é a minha verdadeira feitiçaria atual.

O milagre pode não ter vindo com hora marcada como eu achava na infância, mas a certeza de que o extraordinário está logo ali na frente é o combustível que me faz caminhar, todos os dias, em direção à minha própria luz.