Vai dar zebra ou lógica?

Olho para a tela do celular e sinto uma leve tontura. O Brasil inteiro, do sujeito que frita pastel na rua ao empresário engravatado, transformou-se numa imensa junta de calculistas. O motivo? O tal do bolão da Copa do Mundo.

Mas o mundo resolveu alargar as suas fronteiras de um jeito que assombra qualquer vivente. Quarenta e oito seleções! O torneio inchou tanto que até aquelas repúblicas microscópicas, cujos nomes a gente só descobria antigamente folheando um atlas de capa dura, agora calçam chuteiras para desafiar os donos do mundo.

Os especialistas de plantão gastam suas horas e saliva destrinchando algoritmos e probabilidades. Dizem que a taça já tem destino traçado pelas engrenagens da velha Europa ou pela frieza científica dos computadores asiáticos. Bobagem pura de quem tem a alma quadrada.

O futebol não é uma equação exata; é poesia de calções curtos, escrita com o gênio do imprevisto e o drama do gol de bicicleta nos acréscimos. A bola é redonda justamente para que os reis de cartola percam a majestade diante de um drible bem dado.

E onde eu fico no meio desse formigueiro de palpites? Anoto o meu voto com a caneta da paixão, sem dar ouvidos aos profetas do apocalipse tático. O meu desejo, o meu primeiro e eterno palpite, é ver a nossa seleção Canarinho pintar o céu de verde e amarelo mais uma vez. Quero ver os nossos rapazes jogando com a alma leve do moleque, que corre descalço atrás de uma bola de meia no cascalho de campinho improvisado, esquecendo os contratos milionários e reencontrando a malandragem que inventou o futebol arte.

Mas meu coração é bicho caprichoso e afeito ao romantismo. Se o destino nos pregar uma peça e a nossa pátria amada não erguer o caneco, que a glória não caia no colo do favoritismo sem graça. Se não for o Brasil, que o troféu seja de quem jogar com mais alma e menos holofote.

Que vença o futebol moleque de qualquer outro canto, aquele que faz o torcedor pular da cadeira por puro espanto, abraçar desconhecido, chorar sem vergonha alguma e acreditar, por noventa minutos, que o impossível também veste chuteiras.

No grande bolão da vida, quando o favorito tropeça e a poesia vence a planilha, quem ganha é todo mundo que ainda se surpreende com o jogo, esse velho milagre redondo que junta continentes, sotaques e corações no mesmo grito de gol.