UM CLONE DE PENAS

Quem me vê hoje, uma adulta perfeitamente equilibrada (ou quase), não imagina que na infância eu era o que os antigos chamavam de “chorona de marca maior”. Eu chorava por brinquedo quebrado, por joelho ralado e, sem exagero, até pelo último pedaço de bolo disputado com meu irmão.
Mas o ápice do drama familiar não era o meu choro em si. Era o eco dele. No coração da nossa casa, logo acima do tanque de lavar roupas, ficava o trono de Godofredo. Godofredo não era um papagaio comum; ele era o legítimo monitor de segurança da residência, uma câmera de vigilância com asas e bico. Ele passava o dia ali, acompanhando o vaivém do sabão em pó, as pilhas de roupas amontoadas ao chão e, claro, os meus espetáculos teatrais em forma de lágrimas.
De tanto ouvir o meu repertório de lamentações, Godofredo resolveu fazer um upgrade no seu vocabulário. Ele não aprendeu a falar “dá o pé, louro”. Não. Ele aprendeu a reproduzir o meu choro. E não era uma imitação barata de taquara rachada: era um áudio em alta definição, com o mesmo tom, a mesma falta de ar e o mesmíssimo drama da minha própria voz infantil.
O caos estava instaurado. Eu podia estar calmamente brincando no quarto quando, de repente, a casa explodia num pranto de cortar o coração. Minha mãe, desesperada, largava tudo o que estava fazendo e gritava de onde estivesse: “O que aconteceu agora, Branca?!” O silêncio absoluto que se seguia era o primeiro sinal de alerta.
Sem resposta, ela corria até o quintal, com o coração batendo na garganta, apenas para encontrar o tanque sem roupas e, logo acima dele, um papagaio verde olhando para ela com a maior cara de deboche do reino animal. Se Godofredo pudesse rir, ele riria. Essa dublagem perfeita rendeu tantas confusões, sustos e risadas que acabou ganhando um capítulo vitalício no livro oficial de memórias da nossa família.

E foi assim que, entre meus insistentes soluços e um “crec-crec” de asas no poleiro, Godofredo virou lenda doméstica e, se minha infância foi um terreno cheio de sustos, ele foi o maestro de penas daquela orquestra maluca, regendo choros falsos, correria verdadeira e gargalhadas que até hoje batem asas dentro de mim.
Como boa canceriana, essas lembranças ficam voando pela casa da minh’alma, repetindo, com bico de papagaio e talento de artista, que todo choro bem imitado pode vir de passarinho, e todo passarinho engraçado merece eternidade.
Deus te guarde, Godofredo, o único ser vivo que transformou minhas lágrimas de infância em uma comédia inesquecível.

