Condenado por um algoritmo

Quando a inteligência artificial decide sem ouvir ninguém, o consumidor perde o acesso ao próprio dinheiro e também à própria voz

A inteligência artificial chegou prometendo facilitar a vida. Em muitos casos, realmente facilita. Em outros, porém, consegue fazer exatamente o contrário: transformar um cidadão comum em suspeito, sem acusação formal, sem explicação convincente e, pior, sem direito de defesa.

Há dez dias descobri, na prática, que um algoritmo pode ser mais implacável do que qualquer burocrata. Minha conta do Mercado Pago foi bloqueada e, junto com ela, o acesso ao Mercado Livre. O motivo? Um robô informou que o sistema identificou uma “operação de risco”. A análise continua. E só.

A tal operação suspeita nada mais era do que o recebimento de diversos PIX da festa junina do colégio. Quem organiza eventos sabe que dezenas de pagamentos entram em sequência. Para um ser humano, isso seria facilmente compreendido. Para a inteligência artificial, aparentemente, tornou-se motivo suficiente para transformar um cliente em investigado.

Enquanto o algoritmo “analisa”, a vida real não espera. O dinheiro permanece retido. O cartão venceu e não consigo pagá-lo porque o aplicativo está inacessível. Produtos comprados não puderam ser retirados por falta do QR Code. Outro item perdeu o prazo de devolução pelo mesmo motivo. Tudo ficou congelado por uma decisão automática.

O mais curioso é que falar com uma pessoa quase virou lenda urbana. Quando finalmente consegui, a resposta foi idêntica à do robô, como se o ser humano também tivesse sido programado para repetir frases prontas.

No fim das contas, talvez o único ser humano que ainda vá analisar meu caso seja um juiz, numa ação por  dano moral. Ironia dos novos tempos: para provar que sou uma pessoa, talvez eu precise recorrer justamente à Justiça feita por pessoas.