Meio Século no Mesmo Compasso

Meu marido tem um gosto musical deliciosamente nostálgico. Outro dia, enquanto ele ouvia alguns clássicos dos anos 70, sentei-me ao seu lado e comecei a prestar atenção, com mais calma, na letra que saía da caixa de som: “Pare o mundo que eu quero descer!”. Confesso que sorri. Não apenas pela dramaticidade da frase, mas porque ela continua fazendo um sentido danado.
Era 1976. Silvio Brito, com as calças boca de sino em plena glória, lançava um desabafo que parecia pertencer àquele tempo, mas acabou atravessando gerações. Já havia trânsito para testar a paciência, inflação subindo, bolso ficando mais leve, vizinho aumentando o rádio como se fosse dono da rua e conta de luz chegando com aquele talento especial de estragar o café da manhã.
De Geisel a Lula, passando pelo confisco de Collor, pela estabilidade de FHC, pelo “coração valente” de Dilma e pelo “capitão” Bolsonaro, o Brasil já trocou de comando muitas vezes desde aquele refrão de 1976. Mudaram os rostos, os discursos, os slogans, as promessas e até o figurino. Mas certas angústias nacionais continuam ali, firmes, quase pontuais como boleto em começo de mês.
Também experimentamos praticamente todas as grifes ideológicas disponíveis no armário da história: o uniforme austero dos militares, o linho branco da redemocratização, a camisa polo da social-democracia, a estrela vermelha do operariado, a bandeira nacional usada como capa de super-herói e, de tempos em tempos, um retorno aos velhos clássicos. A cada quatro anos, o país ensaia a mesma cena, dividindo-se em torcidas apaixonadas, discutindo na fila do pão, brigando no grupo da família e depositando em um nome a esperança de que, agora sim, tudo vai se ajeitar.
Cinquenta anos depois ainda cultivamos a ilusão muito brasileira de que o presidente seja uma espécie de personagem mitológico, capaz de curar o país por decreto, discurso ou osmose institucional.
A verdade, dita sem ressentimento e com uma pitada de humor para não tornar o assunto pesado, é que trocar o morador do Palácio da Alvorada na expectativa de que isso, por si só, resolva todos os problemas do país talvez seja uma de nossas esperanças mais recorrentes e também um de nossos maiores equívocos coletivos. O extremismo atual, que transforma o almoço de domingo em uma assembleia familiar com farofa, muitas vezes nos distancia do essencial: os problemas estruturais do Brasil são antigos, persistentes e pouco se importam com a posição política de quem assina (ou não) o Diário Oficial.

Como o mundo não vai parar para que a gente desça, o jeito é seguir viagem com senso crítico, disposição para refletir e uma dose generosa de paciência. O próximo presidente pode até mudar a cor da decoração da rampa, o tom dos discursos e o roteiro das promessas. Ainda assim, o caminho do hospital, da escola pública e da vida real continuará exigindo mais do que esperança depositada em um único nome.

