A Matéria e a Infância

Passou a supercélula

Vieram ventos desmedidos, pedras de gelo caindo do céu como se o mundo se partisse e, depois, aquela triste escuridão dos dias sem energia. São momentos como esses que a natureza nos lembra o quanto somos pequenos. Passamos boa parte da vida acreditando que controlamos as coisas, que a casa nos protege de tudo, que o amanhã seguirá o roteiro que imaginamos. Mas basta uma tempestade para desfazer as certezas.

Dias depois, a água voltou às torneiras, a luz acendeu novamente e, aos poucos, a rotina retomou o seu lugar. Restava limpar os vestígios deixados pelo vendaval: galhos espalhados, folhas pelo quintal, o barro trazido pela enxurrada. Faz parte da natureza humana colocar ordem no que o caos desarrumou.

Foi durante essa tarefa que os vi.

Um grupo de meninos, talvez com oito ou nove anos, caminhava entre os galhos caídos na praça. A idade em que as pernas já correm sem supervisão adulta, mas o coração ainda está aprendendo a reconhecer o mundo. Eles observavam o chão com curiosidade, procurando os passarinhos atingidos pelo granizo.

De repente, um deles gritou, com a alegria de quem encontra um tesouro:

— Achei mais um… ele está vivo! Vamos matar?

Fiquei imóvel, com a vassoura apoiada no chão.

Meus pensamentos pareceram desacelerar por um instante.

Nas pequenas mãos daquele menino havia um passarinho ferido, ainda respirando. Do ponto onde eu estava consegui ver a ave colocada sobre um pedaço de madeira e, em seguida, olhei para as crianças. Não enxerguei crueldade deliberada. Vi, talvez, algo ainda mais inquietante: a dificuldade de perceber que aquela pequena vida, tão frágil, também merecia cuidado.

Após esse momento, passei a pensar nos muitos anos que trabalhei dentro de escolas. A escola ensina a ler, a escrever, a resolver problemas, a compreender a ciência dos ventos e das tempestades. Mas certos aprendizados começam muito antes dos cadernos. A capacidade de se comover diante da fragilidade, de acolher em vez de ferir, de perceber que toda forma de vida carrega um valor, costuma nascer nos gestos cotidianos, no exemplo, na forma como os adultos tratam pessoas, animais e o próprio mundo.

Esse tipo de educação é uma das lições mais difíceis de transmitir. Não se ensina apenas com palavras, mas com a maneira como vivemos.

As tempestades passam e as árvores voltam a crescer. Os telhados são reconstruídos e a cidade reencontra o seu ritmo.

Terminei de varrer. Quando levantei os olhos, os meninos já tinham ido embora. O pequeno pássaro, não sei. Desde aquele dia, me pego pensando que algumas tempestades continuam a destruir mesmo depois que o céu volta a ficar azul.