Criar cargos enquanto faltam recursos para pagar quem já está?

Projetos foram rejeitados por unanimidade enquanto o município acumula atrasos com servidores, aposentados, entidades, fornecedores e serviços essenciais

As duas propostas encaminhadas pela Prefeitura à Câmara para a criação de novos cargos provocam uma reflexão inevitável: como ampliar a estrutura administrativa quando o município enfrenta dificuldades até para cumprir compromissos já assumidos?

Os problemas financeiros não são pontuais. Há atrasos envolvendo folha de pagamento, repasses ao IPREMT para pagar os aposentados, entidades, fornecedores e até a Santa Casa. Em meio a esse cenário, a administração optou por encaminhar projetos que ampliariam a máquina pública, quando o caminho mais coerente pareceria ser exatamente o contrário: reduzir despesas, rever cargos comissionados e reorganizar prioridades.

O próprio prefeito já declarou, em outra oportunidade, que Taquaritinga poderá precisar de cerca de dez anos para recuperar sua saúde financeira. Se esse é o diagnóstico apresentado pelo chefe do Executivo, torna-se ainda mais difícil compreender a tentativa de criar novas funções remuneradas neste momento.

O desfecho na Câmara foi emblemático: os projetos foram rejeitados por unanimidade. Nem mesmo a vereadora Lívia Zuppani, filha do prefeito, votou favoravelmente às propostas. A decisão mostra que, pelo menos no Legislativo, prevaleceu a percepção de que este não é o momento para aumentar despesas permanentes.

A situação chega a causar estranheza. Diante de uma crise tão evidente, fica a impressão de que o envio dos projetos poderia até servir como uma espécie de resposta política a quem reivindicava melhor remuneração ou novos espaços na administração: “eu tentei, mas a Câmara não deixou”.

Se foi essa a intenção, trata-se de uma estratégia discutível. Se não foi, permanece a pergunta principal: por que criar novos cargos quando ainda faltam recursos para honrar adequadamente as obrigações que já existem?

Em tempos de crise, gestão responsável exige prioridade, equilíbrio e, principalmente, coerência.