Meu cotidiano sob quedas de energia: uma rotina de espera e adaptação

Moro no bairro Laranjeiras I e, por aqui, os episódios de queda de energia estão se tornando cada vez mais frequentes. Curiosamente, não é necessário que haja tempestade, ventania, raios ou sequer uma nuvem no céu para que isso aconteça. O tempo está limpo, o céu aberto, e mesmo assim, a energia simplesmente vai embora.
Nós, consumidores, nos encontramos em uma situação quase surreal, olhando para os eletrodomésticos e torcendo para que sobrevivam a mais uma interrupção. Já aprendemos, na prática, que energia que vai e volta pode causar danos aos aparelhos, levando consigo algo mais a cada retorno.
Existe ainda uma preocupação bastante real e prosaica: sair de casa. Quando falta energia, o portão eletrônico não funciona, e para sair com o carro, é preciso desmontar os pinos do portão manualmente. Essa necessidade de adaptação mostra que, até para uma tarefa simples como sair de casa, é preciso estar preparado para a falta de energia. Caso estejamos fora, a precaução é ter uma chave reserva no console do carro, antecipando possíveis contratempos.
É importante destacar que não se trata de falta de pagamento. A conta de energia chega e é paga pontualmente, demonstrando que o consumidor faz sua parte. Mesmo assim, permanece a dependência de uma prestação de serviço que deveria ser, no mínimo, confiável.

Ultimamente, minha maior preocupação é ainda mais simples: tomar um banho. Entro no chuveiro fazendo uma pequena prece para que a energia permaneça. Já conheço a história: ligo o chuveiro, a água está na temperatura ideal, mas de repente, plim, escuridão. E lá fico eu, ensaboada, tentando decidir entre terminar o banho ou desenvolver uma nova personalidade capaz de apreciar água fria, algo que definitivamente não sou.
Na rotina diária, a vida ensina que nenhum conforto é tão banal quanto parece. A luz acesa, o portão que abre, a geladeira funcionando, a água quente do banho são pequenas delicadezas da vida moderna que só percebemos quando começam a nos faltar.
Essas quedas sucessivas incomodam porque não é apenas a lâmpada que se apaga; é a previsibilidade que se perde. A casa deixa de obedecer à rotina estabelecida e surge a sensação incômoda de precisar estar sempre preparada para o próximo plim. Sigo em frente: pago a conta, cuido dos aparelhos, aprendi a liberar o portão manualmente e, antes de entrar no banho, olho para o chuveiro quase com desconfiança.
Lá fora, o céu continua azul, sem sinais de tempestade. E mesmo assim, fico esperando: que a energia permaneça, que os aparelhos resistam, que o portão abra, que a água permaneça quente. É uma espera pequena, bem doméstica, mas reveladora do que estamos vivendo: quando um serviço essencial deixa de ser certeza e passa a exigir prece, cautela e torcida, algo deixou de funcionar muito antes de a luz se apagar.
Eu, que só queria tomar meu banho quente, sigo fazendo a minha parte: a conta está paga, o chuveiro ligado, a água quentinha. Agora, só falta a energia cumprir a sua.

