FAMÍLIA: ENTRE O “NÓS” E “ELES”

Era uma comemoração em família. À primeira vista, parecia uma daquelas festas que reúnem todos em torno da mesma mesa, da mesma história e da mesma celebração. No entanto, bastou observar por algum tempo para perceber algo interessante: mesmo dentro de uma família, as pessoas tendem a se dividir em pequenos grupos, que se formam por razões diversas.
Pela intimidade entre poucos, pela frequência com que se encontram, por amizades cultivadas ao longo dos anos ou simplesmente pela afinidade construída no convívio. Alguns conversam mais entre si, outros se procuram assim que chegam e ainda há aqueles que, naturalmente, permaneçam um pouco mais distante.
A formação desses grupos, por si só, não parece extraordinária. É próprio da natureza humana buscar a companhia de quem nos é mais próximo. O que mais me intriga, porém, é o que às vezes acontece depois que essas divisões se estabelecem. Em algumas conversas, um grupo passa a falar (geralmente mal) do outro grupo. E, não raramente, alguém que está “do lado de fora” também se transforma em assunto.
Foi uma constatação medíocre, feita entre uma taça e outra de vinho, mas que me acompanhou na volta para casa. Pensei em como somos rápidos em reconhecer esse comportamento quando acontece longe de nós: no olhar desconfiado do grupo de vizinhos, nos profissionais que desqualificam outros ou em pessoas com hábitos diferentes que se tratam como se pertencessem a mundos incompatíveis.

Mas será que agimos de modo tão diferente dentro dos nossos próprios círculos? A família, afinal, é uma pequena representação do mundo. Ali também existem afinidades, distâncias, alianças, preferências e pequenas fronteiras que ninguém desenhou, mas que todos parecem conhecer.
Quanto mais observava, mais percebia que a necessidade de pertencer não se confunde propriamente com os laços sanguíneos. Acabamos criando grupos a partir daquilo que temos em comum e definimos quem não faz parte deles. É como se o “nós” só ficasse completamente claro quando encontramos um “eles”. Nessas situações, passamos a enxergar o outro mais pelo que nos separa do que pelo que ainda nos aproxima.
Aquela festa de família me lembrou algo bastante simples: antes de dividirmos a sociedade em grupos, aprendemos a fazer isso dentro de casa. E a parte mais difícil do convívio talvez seja reconhecer que podemos gostar muito de estar entre os nossos sem precisar transformar os outros em estranhos.
Eu sei que pertencemos a muitos grupos ao mesmo tempo, mas, ainda assim, continuo sendo apenas uma pessoa tentando compreender a vida a partir do pequeno lugar que me coube ocupar.

