NAS CALÇADAS DO TEMPO

Quando a notícia chegou já se fazia noite e, antes que a razão pudesse contê-la, fez morada no fundo da minh’alma, movendo o que parecia adormecido. Me recordar de dona “Claudete” foi como abrir uma fresta no tempo, no cheiro de infância e, com eles, o burburinho de crianças a caminho da escola. Naquele tempo descalço, os adultos não se definiam por cargos, sobrenomes ou posições; existiam na pureza de um aceno, na porta encostada e na ternura com que ocupavam o mundo.
A memória, essa fiandeira do que fui, pegou-me pela mão e me levou de volta aos sete anos de idade. Minha vida inteira cabia na extensão da rua de minha avó “Tiana”, onde cada quarteirão era abrigo e cada rosto, paisagem afetiva. No meu mapa de ir e vir cotidianos, havia um especial: a calçada onde dona “Claudete” lavava as manhãs com o esguicho de jardim. O som da água correndo pelo chão trazia consigo uma cordialidade límpida, que refrescava meu passo reto em direção à escola.

Pouco eu sabia de sua vida, e aí residia a beleza sem retoques daquele afeto. Eu desconhecia sua identidade no mundo dos adultos; não sabia do seu casamento com o doutor da cidade, tampouco que era mãe de “Carlinhos”, o amigo com quem dividia a sala de aula. Eu sabia apenas o essencial: a forma despretensiosa como ela sorria, o tom alegre de sua voz no ar e a familiaridade de sua casa, que parecia um prolongamento do meu próprio caminho.
A vida, contudo, é feita de pequenos círculos afetivos. Conforme crescia, meus passos retornavam àquela mesma casa. Primeiro, atraídos pelo espelho d’água da piscina onde a infância se dilatava em gargalhadas. Vivíamos ali com a despreocupação feliz de quem ainda não desconfiava das obrigações, dos relógios e das renúncias que o futuro nos cobraria. Mais tarde, retornaria já nos limiares da juventude, de mãos dadas com o tempo, ao lado de Rogério e Thaíz. O tempo parecia ter tocado o contorno das coisas, mas dona “Claudete” permanecia intocada em sua essência: a mesma fortaleza sorridente, a bondade sem alarde, o respeito que não carecia de solenidades.
Na hora do adeus, entre os braços que se buscavam no desconcerto do silêncio, reencontrei seus filhos e velhos amigos, rostos guardados nas gavetas mais fundas do meu peito. Olhando para eles, compreendi que algumas pessoas, ao partirem, operam o milagre de nos devolver uns aos outros, ainda que por um breve instante de dor e amor.
A morte pode roubar o sopro, mas é impotente diante daquilo que nos foi semeado. Grande parte do que sou hoje carrega o rastro daquelas manhãs a caminho da escola. E dona “Claudete” é parte dele: no ruído d’água na calçada, na algazarra da meninada nas manhãs letivas, nas tardes de sol na piscina e naquele sorriso que atravessou as minhas estações sem jamais perder a beleza.
Por isso, se a saudade pedir abrigo, não buscarei consolo na ausência. Bastará fechar os olhos e caminhar, em pensamento, por aquela rua antiga. Ela estará lá. À porta da casa. No coração das minhas memórias. Com o mesmo sorriso de sempre.

