O CHÃO QUE CLAMA POR UM BEIJO

Taquaritinga é uma daquelas cidades que, secretamente, possuem um pacto com os ponteiros dos relógios, operando numa frequência onde o tempo é lento, boceja e se espreguiça. Enquanto o resto do planeta se desdobra em fuso horários complexos e reuniões de negócios em arranha-céus espelhados, aqui as esquinas permanecem fiéis a uma liturgia própria, tal qual um magnetismo, atraindo memórias afetivas em detalhes que, para um olhar apressado, poderia parecer capricho da mecânica ou teimosia geográfica.

Se a modernidade muda de cenário a cada década, eu celebro a permanência como uma forma de poesia urbana. Voltando os olhos para o início do século vinte e um, quando a internet ainda chiava e a vida acontecia intensamente na calçada, a estética da juventude local era ditada por uma engenharia audaciosa.

Lembro-me bem de duas criaturinhas iluminadas que vinham da efervescente metrópole campineira para passar os dias por aqui na casa dos avós. Eles ficavam completamente hipnotizados pelo bailado daqueles utilitários de caçamba que desafiavam as leis da gravidade e, principalmente, a integridade dos quebra-molas.

Para aqueles meninos, ver um veículo utilitário rodar rente ao asfalto, quase beijando o chão com orgulho e ostentando o som mecânico daquela juventude, era o equivalente a presenciar uma espaçonave pousando no quintal. Era o ápice do estilo, o troféu de uma geração que queria apenas desfilar devagar para ser vista.

O tempo, esse mestre sutil, soprou aqueles dois meninos apaixonados para muito longe das nossas fronteiras. Hoje, transformados em adultos brilhantes e bem-sucedidos, constroem suas vidas sob céus internacionais, colhendo os frutos da audácia que Deus plantou em seus corações. Deixaram para trás a calmaria do interior para conquistar o mapa mundi.

No entanto, o mais fascinante dessa engrenagem chamada vida é que, enquanto eles cruzaram oceanos para alcançar o topo, a minha querida cidade decidiu que algumas paixões são eternas e não poderiam ser aposentadas pelo progresso.

Ao caminhar hoje pelas mesmas calçadas e esquinas, o ouvido mais atento ainda capta aquele ruído característico, quase musical, das carrocerias que se recusam a subir na vida, preferindo manter-se coladas ao chão. Conduzidas agora por novas mãos, elas resistem bravamente ao apelo dos SUVs modernos. E não importa quão longe esses meninos voaram, o porto seguro das suas férias de infância continua guardando, intacto, o mesmo brilho que um dia os fez sorrir. Porque elas continuam por aqui como patrimônio sobre rodas, as lendárias “Saveiros rebaixadas”.